Elielberth Falcão← Todos os artigos
BIBLIOTECA / Lacan e o sujeito

Para o Perverso, a Lei é o Desejo

Imagem editorial para Para o Perverso, a Lei é o Desejo
CADERNO DE LEITURA

Vire as páginas e leia no seu ritmo.

Para o Perverso, a Lei é o Desejo

Há um traço essencial na estrutura perversa que a distingue das demais: o perverso não reconhece a lei como limite, mas como instrumento de prazer.

Enquanto o neurótico sofre com as proibições impostas pela lei — “não pode”, “não deve” —, o perverso se satisfaz ao se colocar como aquele que a aplica ou a manipula.

🧩 O que isso significa?

Em termos simples, o neurótico se sente culpado quando transgride; já o perverso goza ao obedecer. Ele não serve à lei para ser justo, mas para sentir prazer no ato de exercer poder, controle ou domínio. Por isso, dizemos que ele “serve à lei para gozar, e não para se castrar”.

⚖️ 1. O Juiz Moralista

Um exemplo comum é o juiz que condena com prazer. Ele parece estar cumprindo seu dever, mas o que o move é o prazer de punir. A lei, nesse caso, é o meio de realizar seu desejo de poder. Ele “goza” ao ver o outro humilhado sob o peso da sentença, enquanto mantém a aparência de defensor da justiça.

🧕 2. O Fanático Religioso

Outro exemplo é o do fanático religioso que se sente autorizado por Deus a julgar e excluir. Em nome da “lei divina”, ele se coloca acima do outro, acreditando ser instrumento da verdade. Mas, no fundo, o que o move não é a fé, e sim o gozo de dominar, corrigir e punir. A religião, nesse caso, serve de máscara para o prazer de exercer poder.

💔 3. O Manipulador Afetivo

No campo das relações pessoais, encontramos o perverso afetivo: aquele que usa o amor, a culpa ou a moral para controlar o outro. Ele pode dizer “faço isso por você”, mas o que realmente o satisfaz é ver o outro submisso à sua vontade. A lei, nesse caso, não é a justiça ou o bem, mas a sua própria palavra transformada em regra.

🧠 Como identificar um perverso na prática

1. Prazer no controle: o perverso sente satisfação em dominar, punir ou corrigir.

2. Uso da lei a seu favor: ele cita regras, normas ou princípios, mas sempre de modo que o favoreça.

3. Ausência de culpa: não se arrepende, pois acredita estar “certo” — a lei e o desejo coincidem em si.

4. Discurso moral elevado: muitas vezes se apresenta como ético, justo ou espiritual, mas com intenções ocultas de poder.

Reconhecer esse funcionamento é fundamental tanto na clínica quanto na vida social. A perversão, aqui, não é apenas sexual — é uma forma de relação com a lei e com o outro. Enquanto o neurótico sofre pela culpa, o perverso se satisfaz com o próprio poder.

Referências Bibliográficas

FREUD, S. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, v. VII.

FREUD, S. O Problema Econômico do Masoquismo. ESB, v. XIX.

LACAN, J. Seminário, Livro 7: A Ética da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

LACAN, J. Seminário, Livro 17: O Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

MILLER, J.-A. O Percurso de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

✍️ Sobre o Autor

Elielberth Falcão é psicanalista didata, professor e pesquisador em Psicanálise Contemporânea.

Formado pelo IBPC, é docente em instituições de formação psicanalítica e professor de Psicanálise Contemporânea. Atualmente, é graduando em Psicologia pela Universidade Unigranrio.

Autor dos livros Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e Narcisismo num Compêndio Clínico, ambos pela Editora Santorini.

Publicado originalmente em Psicanalisando em Síntese ↗