Liberdade não é desempenho
Vivemos em uma época em que a liberdade se converteu em exigência de performance. O sujeito moderno acredita ser livre porque pode escolher, consumir, decidir e expor. No entanto, essa mesma liberdade o adoece, porque está aprisionada à lógica do “posso tudo” — uma lógica que não liberta, mas esmaga.
Na sociedade do desempenho, como bem observou Byung-Chul Han, não há mais um senhor que oprime de fora; há um sujeito que se cobra de dentro. Ele é, ao mesmo tempo, senhor e escravo de si mesmo. Corre, produz, se reinventa, e ainda assim se sente em dívida — com o trabalho, com a imagem, com o sucesso.
Mas a psicanálise nos alerta: liberdade não é desempenho. E mais — liberdade não é fazer o que se quer, mas, pelo contrário, é poder fazer o que não se deseja exatamente.
Essa afirmação, aparentemente paradoxal, encontra sentido no campo freudiano. Freud nos mostrou que não somos donos do nosso querer. O “querer” está atravessado por determinações inconscientes, por desejos que não controlamos e por repetições que nos governam. Fazer apenas o que se quer pode ser, portanto, ceder à tirania do próprio inconsciente.
A verdadeira liberdade surge quando o sujeito se depara com o seu desejo e não se deixa capturar totalmente por ele. É a capacidade de sustentar a falta, de agir não por impulso, mas por elaboração. Em outras palavras, ser livre é poder não fazer o que se quer, é ter distância do próprio gozo.
Lacan reforça essa leitura ao dizer que a liberdade não está no campo do imaginário — onde se acredita “poder tudo” —, mas no ato ético de não responder à demanda do Outro. O sujeito se torna verdadeiramente livre quando se separa das exigências de sucesso, felicidade e autossuficiência que o mundo impõe, e também quando se separa da compulsão interna de ter que realizar tudo o que deseja.
Liberdade, então, é o espaço entre o desejo e o ato. É o intervalo onde o sujeito pode escolher não ceder à repetição que o aliena. É nesse ponto que a psicanálise oferece uma via de saída do império do desempenho: ao invés de “fazer tudo”, ela convida o sujeito a suportar não fazer tudo — e, nesse não fazer, descobrir-se inteiro.
Ser livre é poder não precisar provar. É poder não responder à convocação do gozo. É poder silenciar o supereu que exige mais.
A liberdade psicanalítica não é uma libertação do desejo, mas uma responsabilidade diante dele. Ela nasce quando o sujeito assume o risco de não corresponder, de não performar, de não agradar, e ainda assim seguir existindo a partir de si.
Por isso, insisto:
> Liberdade não é desempenho. Liberdade é a coragem de não desejar o desejo imposto. É o ato de fazer o que não se quer — quando o “querer” já é apenas repetição
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. O eu e o id. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Petrópolis: Vozes, 2017.
Sobre o autor,
Elielberth Falcão é Psicanalista didata, professor e pesquisador da interface entre Psicanálise, Religião e Cultura Contemporânea. É autor dos livros: Psicanálise, Religião e Outros Trabalhos e NARCISISMO num COMPÊNDIO CLÍNICO, ambos pela Editora Santorini. É ainda, acadêmico em Psicologia pela Universidade UNIGRANRIO-Afya, Campus-Caxias-RJ
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